Verso de Maria


Carnaval

 

Eu odeio estar sozinha. Quando você está sozinho você ganha tempo para escutar a si mesmo e isso definitivamente tenho sérios problemas para fazer. Era feriado de carnaval, todos meus amigos foram viajar, alguns ficaram… e então sai e me distrai com o mundo lá fora. Mas na segunda-feira acabei ficando sozinha. Fui ver meu avô no hospital, resolvi doar sangue para alguém e depois fui caminhar. Fiquei sentada na escadaria da Gazeta olhando o movimento.

 

Ventava e comprei um echarpe bonito e também um broche. Ajeitei em volta do pescoço. Sabe aquelas pessoas que passam com um lenço e um livro na mão, elas parecem cheias de si mesmo e sabem para onde está indo.

 

Depois fiz as contas de quanto dinheiro tinha na carteira, achei melhor ir embora logo, iria escurecer e um táxi para casa ficaria caro. Decidi ir ao shopping, entrei em uma livraria cheia de famílias e casais felizes, não pareciam estar incomodados por não terem ido viajar em um feriado que pára esse país.

 

Quando estamos rodeados de estranhos e estamos perdidos é a mesma coisa que ficarmos sozinhos e então não reparei em mais ninguém. Comprei um bilhete de cinema, comi alguma coisa, entrei em um café, tirei meu livro da bolsa e esperei o horário do filme.

 

Meu pai quem foi me buscar, tinham algumas ligações perdidas no celular e isso me fez feliz. Enquanto aguardava meu pai foi o momento em que me senti infinitamente sozinha. Aqueles minutos de espera me fizeram pensar, mais uma vez, o quanto eu não sei estar só. Fico me perguntando o que as pessoas pensam quando ficam sozinhas.

 

A minha cabeça parece uma corrida, vem uma palavra atrás da outra e eu não consigo pensar o que quero. Nessas horas eu gostava de inventar alguma história e não precisava escutar a minha própria voz. Contudo, por algum motivo ultimamente não consigo mais fazer isso e agora tenho que me ouvir. O que é um tanto quanto complexo para quem não sabe fazer isso.

 

Às vezes eu penso nas pessoas que sofrem de verdade, aquelas que estão em meio a uma guerra, ou aquelas que morrem de fome e correm para comer arroz cru. E me sinto ridícula pensando em mim. Olho a luz de cada andar de um prédio e imagino o que está acontecendo em cada janelinha. O que intriga são as luzes de prédios comerciais acesas às 23h de um feriado, existem pessoas trabalhando? E será que vale a pena?

 

Não gosto muito das teorias pessimistas de Nietzsche, mas tem uma frase dele verdadeira, “humano, demasiado humano”. Traçamos sonhos, carregamos desejos, todavia todos temos os mesmos medos. Não há controle sobre isso, nem para aqueles que estão nos mais altos edifícios comerciais.

 

04.02.2008



Escrito por Maria Fernanda Costa às 23h17
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